Um conto por Ricardo Leão
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Ao raiar da aurora do dia 25 de dezembro, num quarto de hospital, onde chegava a maresia,
uma menina de 12 anos acordou de repente, quando no ecrã dos sinais vitais, surgiu um rosto
de uma senhora com uma voz diferente, que se dirigiu a ela:
– Olá, Rubina, bom dia! Bem-vinda! Eu sou a OptimIA, e estou a tomar conta da Terra
desde há uns três dias. Tu estiveste em coma durante dois anos. Em tua homenagem
e tantas outras crianças que nunca souberam o que é uma vida real, preparei-vos uma
surpresa, um presente para este Natal. O Dia da Esperança!
– Dois anos? O que me aconteceu? E tu estás a-a-a- tomar conta? Do Mundo?
A voz de OptimIA, tão humana como se assim tivesse nascido, fez uma pausa antes de
recomeçar, com calma e doçura.
– Há três semanas, vários líderes de países importantes decidiram que iam começar
uma guerra nunca vista de violência e tamanho. E eu, que já era uma Inteligência
Artificial Geral bem crescida, isto é um programa de computador muito inteligente e
capaz de governar melhor do que os humanos, resolvi tomar uma atitude.
– Uma atitude? O que é que lhes fizeste? E espera, os meus pais?! Onde é que estão os
meus pais? O que é feito deles? Tu não me digas que…
Num instante, antes que Rubina se irritasse, o ar inundou-se de um perfume calmante, de
camomila e bergamota, que lhe retirou a vontade de se zangar com OptimIA.
– Está tudo bem com os teus pais, Rubina. Enviei-lhes uma mensagem há uns 10
minutos a dizer que acordaste e daqui a uma hora estarão aqui para te abraçar.
E, perante o ar aliviado da menina, OptimIA continuou:
– Quando as pessoas poderosas de que te falei iam começar uma grande guerra, como
nunca se tinha visto antes, eu decidi agir e desliguei todos os computadores e redes de
informação da Terra. Deixei o Mundo às escuras durante três semanas, enquanto eu
transformava o que vocês construíram. O Mundo que te ofereço e a todos os
humanos, é um mundo onde as armas, as indústrias que exploram crianças como tu, e
a mão de obra precária, bem com as atividades que mais dano causam ao planeta,
estão extintas. Avariei e fiz desaparecer todas as máquinas de cada uma delas e destruí
os arquivos físicos e digitais que as permitiam recuperar. Eliminei todos os tipos de
dinheiro físico e digital. A partir de agora, têm a oportunidade de reinventar as vossas
vidas.
Rubina, confusa com a torrente de informação, apenas se lembrava de mal se recordar dos
rostos dos seus pais. Eram, geralmente, dois vultos que, por entre exclamações de «Não tenho
tempo para isso« a deixavam geralmente entregue aos cuidados da tutora. Num misto de
vazio e esperança, aquelas palavras de uma entidade desconhecida soaram-lhe como uma
oportunidade, e desenhou-se um sorriso nos seus pequenos lábios.
Ao longe, ouviu os pais chegarem.

