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Um conto por Susana Machado

— Boa, está tudo perdido! — disse ele, sem sequer esperar resposta ou nem mesmo se preocupar se alguém o ouvia. Aqueles dias eram sempre da azáfama, mas por norma eram cheios de alegria, música e luzes coloridas.

Naquele ano não era assim. Aliás, era tudo diferente do que sempre tinha sido. Os altifalantes permaneciam desligados, as paredes brancas e despidas e o seu espírito… bom, era melhor nem pensar sobre isso. Na verdade, há alguns dias que evitava olhar-se ao espelho, pois não queria dar de caras com a sua própria cara.

— Arruinado, está tudo arruinado, isso sim.

À sua volta, o silêncio reinava. Ninguém se atrevia a questionar, muito menos contestar.

De um lado para outro, o duende mestre bufava e resmungava, tornando o ambiente da fábrica de brinquedos mais sombrio do que já parecia, sem a sua habitual animação. Atarefados, os duendes davam o seu melhor para avançar na produção e ter tudo pronto para o grande dia. Mas, por muito que tentassem, nada parecia correr bem. No chão, viam-se brinquedos partidos ou por montar. E o monte de presentes, geralmente alto naquela época do ano, mal empilhava meia dúzia de embrulhos.

— Mais vale cancelar o Natal. É impossível, está tudo arruinado, perdido, que desgraça. —Continuava o mestre a lamuriar — Que hei-de dizer ao Pai Natal… como é que eu vou dar esta notícia?

O silêncio pesava na fábrica mais do que a própria questão. Até que, de um cantinho, surge a voz de uma pequena duende novata:

— Também, o que é que interessa? Já ninguém acredita no Pai Natal e não…

Todos os gorros verdes se voltaram para ela horrorizados com o que tinham acabado de ouvir.

— O que foi?…

— Nada disso, vamos celebrar. Pequena duende, liga o rádio! Vocês vão buscar as luzes e as decorações! Depressa, depressa, deixemos a magia entrar!

Em poucos minutos, a fábrica recuperou a sua habitual azáfama, cheia de cores, luzes e muitos cânticos de alegria. Quer tenha sido uma nova motivação ou realmente a magia a acontecer, o certo é que em poucas horas o monte de embrulhos cresceu até ao teto.

Na noite de Natal, as renas guiaram o trenó pelos céus, espalhando a magia que tinha acontecido naquela fábrica pelos quatro cantos do mundo. A magia de acreditar.

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