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Um conto por Diana Silva

https://www.instagram.com/dianasilvaautora/

– AS BOLACHAS! AS BOLACHAS! – gritou a Genoveva.

Correu para o forno onde se esquecera das bolachas de manteiga, no meio do querer fazer tudo, de multiplicar os braços, alguma coisa teria de ficar para trás.

Abriu a porta e o fumo condensou-lhe as lentes dos óculos, deixando-a por instantes, cega, bracejou para afugentar o vapor e o cheiro a esturricado, agarrou nas pegas e tirou o tabuleiro onde descansavam estrelas passadas do seu tempo.

– Mãe, porque cheira a caramelo queimado? – Perguntou a Eva enquanto entrava na cozinha tapando o nariz.

Desolada pelas horas perdidas naquela receita encostou-se ao balcão e recebeu a sua filha nos braços.

– A mãe distraiu-se nas limpezas e esqueceu-se das bolachas no forno filha.

Eva curiosa colocou-se nos bicos dos pés, com um aviso rápido da mãe para não se aproximar demasiado, para não se queimar e observou as estrelas de pontas pretas e centro castanho.

Uma pequena gargalhada escapou-se e a mãe sorriu ao escutar, perguntou se achava divertidas as bolachas ou se estas lhe tinham contado uma anedota das boas.

– Podemos chamar-lhes estrelas cadentes mãe, nos filmes não se vê sempre os meteoros a pegar fogo quando chegam à terra? Foi o que aconteceu tenho a certeza!

Genoveva olhou para o tabuleiro e conseguiu ver através do olhar da sua pequena Eva, do seu bem mais precioso e por sinal bastante tagarela.

– Se cortarmos as pontas podemos chamar-lhes meteoros tostados.

Com a pinça numa mão e uma faca de manteiga na outra, Eva de oito anos, com todo o cuidado cortou somente as partes queimadas das bolachas, ficaram formas livres, meteoritos a bem dizer, ergueu a pinça orgulhosa do seu feito e imitou uma estrela cadente.

– Já te disseram que és uma menina muito inteligente?

Ela anuiu.

– Já não estás triste mãe?

Genoveva negou com a cabeça, soprou a bolacha para arrefecer o máximo possível e experimentou. Não eram as melhores bolachas do mundo, mas continuavam doces, a secura cairia bem com o leite ou chá e podia tentar uma fornada nova, ainda sobrava massa.

– Queres experimentar Eva?

Desta vez foi a mãe que cortou a bolacha toscamente e deu à filha para provar. Os seus olhos brilharam e fez uma pirueta.

– São as melhores bolachas do mundo!

Genoveva sabia que não eram, mas a alegria contagiante da filha fez com que acreditasse, dando-lhe assim forças para fazer mais umas fornadas, desta vez com o cronómetro a contar.

No final fizeram ambas as melhores bolachas de natal da mesa, estrelas e meteoritos e não sobrou uma para contar a sua história após a ceia.

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