Um conto por Verónica Santos
Numa aldeia cercada por montanhas, o vento fazia parte da vida; soprava nas janelas pelas manhãs, dançava com as roupas no estendal e fazia as folhas das árvores contarem segredos que poucos conseguiam entender. Mas enquanto todos se queixavam do seu barulho, do quanto ficavam despenteados ou da chatice que causava, uma menina gostava de o ouvir com atenção. Dizia a todos que era preciso ouvi-lo com o coração.
Certo dia, o vento chegou triste, assobiava baixinho, como se fosse um choro abafado e carregava um cheiro a fumo e pó. Bia fechou os olhos, colocou na mão no peito e perguntou baixinho:
– O que se passa, vento azul?
E o vento, sussurrando nas folhas, respondeu:
– Estou cansado e doente. Parece que não consigo respirar… levo o lixo das ruas, o fumo das chaminés, o pó das fábricas e carrego vozes apressadas…
Bia sentiu um nó no peito.
– Desculpa – disse – Prometo que vou ajudar-te a respirar melhor.
No dia seguinte, pegou numa sacola e começou a recolher plásticos e papeis das ruas. Alguns colegas troçaram:
– Vais limpar no mundo sozinha?
Mas Bia não desanimou, sorriu e respondeu:
– Não, tenho o vento comigo.
A professora ouviu a conversa de longe e despertou nela uma ideia maravilhosa. Um desafio para a turma:
– Vamos criar a semana do Sopro Azul. – disse ela. – Cada um de vocês vai imaginar que é uma parte da natureza. Podem ser o vento, a água, as árvores, os pássaros, o que entenderem. Mas vão ter de cuidar do que escolherem como se fossem vocês.
Houve quem fosse uma flor e construísse um abrigo para as abelhas. Quem fosse um peixe e recolhesse o lixo do rio. Quem quisesse ser árvore e plantou sementes no pátio e até quem quisesse ser o sol e desligava as luzes sempre que havia luz natural. E a Bia, claro, escolheu ser o vento. Plantou árvores na colina e fez cataventos coloridos com garrafas recicladas porque sabia o quanto ele gostava de dançar..
Quando a semana passou e o projeto terminou, a aldeia parecia outra! As pessoas caminhavam mais devagar para apreciar o som das árvores, recolhiam tudo o que caía no chão e até o vento voltou a cantar feliz. Parecia que todos tinham aprendido a ouvir o que antes passava despercebido.
Numa tarde, Bia sentiu uma brisa suave a tocar-lhe o rosto e, com a mão no peito, conseguiu ouvir:
– Obrigado por me escutares.
Sorriu de olhos fechados e respondeu:
– Eu só aprendi a sentir o que tu sentes.
Aquela professora atenciosa e atenta, suavemente, conseguiu que todos compreendessem o que a Bia sempre soube: A empatia é quando o coração se põe no lugar do outro, até do vento.

