Um conto por Filipe Araújo
Em tempos já esquecidos, numa era de reis e imperadores, existia um reino muito especial: o Reino Etéreo das Músicas Perdidas. Este era o local onde todas as músicas do mundo se encontravam e, por isso, chegavam diariamente visitantes para poder assistir a concertos, espetáculos, ou simplesmente, deambular pelas cidades a ouvir os músicos de rua, absorvendo a paz e harmonia que envolvia todo o reino.
Lúcio era um rei amado por todos e, tal como os restantes habitantes, um homem simpático, alegre e jovial. Afinal, a música corria no sangue de todos os que ali tinham nascido. Mas se Lúcio era acarinhado, mais ainda o era a sua esposa, a rainha Marla. Além de generosa e sempre bondosa com os seus súbditos, tinha uma voz que maravilhava qualquer um que a ouvisse! Por isso, quando chegou o dia em que se anunciou que a rainha estava de esperanças pela primeira vez, foi uma enorme festa, com centenas de músicas dedicadas a si a preencherem as casas e ruas de todas as cidades, vilas e aldeias do reino. Foram tempos felizes os que se passaram até ao dia do nascimento da futura princesa.
No entanto, num dia de grande infortúnio e inenarrável tristeza, algo correu terrivelmente mal ao dar à luz a pequena Judite e a rainha morreu. O choque e a mágoa foram tão grandes que toda a nação entrou num estado de depressão sem comparação na história daquele reino. Lúcio, então, entrou num desgosto profundo que envolveu o seu coração numa nuvem tão escura quanto o breu. E a música, antes fonte de paz e harmonia no reino, tornou-se para ele uma recordação amarga dos tempos felizes com Marla. Uma simples melodia sussurrada ao longe fazia nascer nele uma tristeza tão profunda, que depressa se transformava numa ira amargurada. Em desespero e incapaz de sentir qualquer alegria, acabou por fazer algo impensável: proibiu toda a música no reino.
A decisão caiu como uma bomba. Foram tempos muito difíceis aqueles que se viveram, onde à desolação e ao desgosto, se juntou a fome dos infortunados que perderam os seus trabalhos como músicos, cantores, dançarinos e todos os demais que faziam os espetáculos e a música acontecer. Uma pessoa, no entanto, por ser tão pequena, não sentiu essas mudanças. A princesa Judite cresceu sem nunca conhecer o que era música e, por isso, sem nunca sentir a falta dela.
O tempo passou e, um dia, Judite, já com os seus cinco anos, nas suas deambulações pelo palácio, viu-se defronte do antigo quarto da mãe. O pai nunca lhe tinha dito, mas sabia. Entrou e viu pela primeira vez a cama da mãe e o toucador onde se penteava e tinha as suas joias. Curiosa, começou a remexer nas gavetas. Acabou por encontrar uma pequena caixa de madeira, incrustada de pequenas pedras preciosas e repleta de sulcos trabalhados. Ao abrir a caixa, qual não foi o seu espanto quando um som de lá saiu. Atónita e maravilhada, deixou-se ali ficar a ouvir aquela melodia delicada e bela que, entretanto, saiu do quarto e espalhou-se aos poucos pelos corredores do palácio. Os criados, atarefados nas suas lides, pararam todos ao ouvirem aquele som que, pensavam eles, tinha morrido para sempre.
Claro que aquela melodia, mesmo distante, chegou aos ouvidos do rei. No início nem queria acreditar, mas quando percebeu que não estava a sonhar, a cólera tomou conta dele. Vociferando, correu irado pelo palácio em direção à música. Quando chegou à entrada do quarto, abriu a porta pronto a castigar severamente quem tinha tido a ousadia de desobedecer a lei. É fácil perceber a perplexidade do rei quando, ao entrar, deu de caras com a sua pequena filha, sentada no chão, com um sorriso do tamanho do mundo, a segurar a caixa de onde a música saía. Nesse momento, algo estalou naquela carapaça de tristeza que há tanto tempo envolvia o seu coração. Com uma sensação de profundo arrependimento, pegou na filha, abraçou-a e uma torrente de lágrimas saiu enfim de si, lavando a alma de toda a ira e esvaziando o coração para depois o preencher novamente com um sentimento de felicidade que há muito não sentia.
No mesmo dia o rei revogou a lei que proibia a música, enchendo de alegria todos os seus habitantes, voltando por fim a paz e a harmonia que há tanto ansiavam. Quanto à princesa Judite, tal como a mãe, tornou-se uma das maiores cantoras da história do Reino Etéreo das Músicas Perdidas!

