Um conto por Susana Machado
Bem no fundo do mar, onde não chega a luz do sol, mas há um mundo que respira, vive Peixoto, um peixe muito curioso. Ele adora explorar as profundezas do mar e, à noite, serve-se da luz natural que o seu corpo emite para subir e explorar outras camadas do oceano.
Peixoto é um peixe culto e com um conhecimento acima da média, pelo que constantemente é procurado por outras espécies que o enchem de perguntas sobre os mais variados assuntos. Responde a todas cheio de entusiasmo e orgulho e, quando, por acaso, lhe chega alguma questão mais complicada, para a qual não tem resposta, passa horas a fio na Biblioteca das Bolhas a pesquisar e a estudar até conseguir aprender.
Um certo dia, numa das suas explorações, Peixoto avista uma mancha enorme e escura, que se desloca na sua direção a grande velocidade. Ao início, sente medo, pois tem a certeza de que não é nenhuma espécie que conheça, mas a sua curiosidade fala mais alto e, por isso, deixa-se ficar o mais escondido que consegue, até que a mancha começa a ficar cada vez mais distinta e percebe que se trata de um submarino. Tinha estudado sobre eles ainda há poucos dias e, como tal, não tinha margem para dúvidas.
O pequeno peixe aproximou-se lentamente do submarino e a sua luminescência depressa o denunciou. Mas Peixoto não temia.
— O que fazes aqui, nas profundezas? Não é costume vermos submarinos por estas bandas.
— Olá, peixito. Eu chamo-me Subi e estou a fazer a minha viagem de despedida. Já naveguei por todos os oceanos, mas nunca me deixaram conhecer as profundezas, porque é perigoso para mim.
— Olá, eu sou o Peixoto! Despedida?
— Sim, a minha vida no mar acabou. Agora querem desmantelar-me e pôr-me num museu, às peças. Já viste o que me espera?
— Uau, que fixe!
— Fixe? Como assim?
— Eu adorava visitar um museu! Quanto mais viver num. Mas aqui não existem museus, como deves imaginar.
— Sorte! Os museus devem ser a coisa mais chata do mundo. Vou morrer de tédio.
Peixoto sentiu as suas luzes tremelicarem em todo o seu corpo. Não podia imaginar um sítio mais interessante do que um museu.
— Tanta cultura… quem me dera. Mas sou um peixe, não posso sair do mar e ir visitar um museu quando me apetece.
Subi ficou a pensar naquilo. Realmente, não ansiava a sua sorte de se tornar uma peça de museu, mas, ao ouvir o pequeno peixe, percebeu que este tinha uma perspetiva diferente da sua e outras limitações que nunca lhe tinham ocorrido.
— Pois… isso é verdade. Olha, só se criares o teu próprio museu aqui.
Peixoto desatou a rir. Como ia criar um museu debaixo de água e o que iria expor no mesmo?
— O mar está cheio de materiais que podes usar como peças de arte… porque não?
Ele já tinha ouvido falar naquilo: transformar o lixo em arte. Mas no fundo do oceano? A verdade é que gostava de um bom desafio e conhecia tantos seres marinhos tão ou mais criativos do que ele. Talvez pudesse resultar.
Aquilo que tinha sido apenas uma ideia lançada ao acaso depressa começou a germinar na mente de Peixoto e, em breve, iria inaugurar o primeiro museu submarino.
Subi não pôde ficar para ver esse projeto crescer, pois o seu lugar era noutro museu, mas muitas vezes lembrava o seu pequeno amigo.
Peixoto, por sua vez, passava o tempo dividido entre a Biblioteca das Bolhas e o seu museu, onde não se fartava de contemplar como é possível dar nova vida aos objetos mais improváveis e como o conhecimento está em todo o lado, muitas vezes onde menos se espera.

