Um conto por Verónica Santos
No sopé de uma montanha branquinha de tanta neve, havia uma aldeia, onde corria um rio de águas tão límpidas que todos o chamavam de Espelho do Céu. De manhã, a água brilhava como prata líquida; à tarde, tornava-se dourada e a noite refletia as estrelas, como se o universo inteiro morasse dentro dela. Ao redor do rio, crianças brincavam alegremente, os peixes deixavam pequenos traços prateados e os campos bebiam daquela água com gratidão.
Mas um dia, o rio começou a ficar turvo. Havia garrafas a boiar, sacos de plásticos a enroscarem-se nas pedras e o som das águas a correr estava mais abafado. Os adultos diziam que a culpa era das chuvas, do vento e do tempo por tal façanha. Mas as crianças, porém, sabiam que o problema não estava no céu, mas nas mãos das pessoas.
Noa era uma dessas crianças, uma menina de tranças compridas e escuras, com o coração inquieto.
– O rio está triste… – disse Mateus, enquanto tirava uma lata da água. – Somos só dois… não vai adiantar. – Continuou desanimado.
– Então, seremos dois a mais que ontem! – respondeu Noa entusiasmada.
No dia seguinte, levaram sacos de pano e luvas. Juntaram o lixo que conseguiram encontrar, separaram o que podia ser reciclado. O trabalho era lento, mas o rio parecia respirar novamente. Um pequeno peixe prateado saltou na superfície, como se agradecesse o gesto daquelas crianças.
D. Alberta, a mulher de meia idade que vendia legumes na feira, parou para ver.
– Que coragem vocês têm!! Ora tomem estas sementes do meu quintal! Plantem junto ao rio.
Noa e Mateus, começaram a plantar, junto à margem do rio, pequenas flores e algumas árvores. Sem entenderem bem como ou porquê, a partir daquele dia, cada um que passava dava algo aos miúdos. A avó Rosa até ensinou a fazer sabão natural, para não sujar o rio. O pequeno gesto daqueles dois corações generosos foi crescendo, como raízes de árvores, mas mais fortes.
Alguns meses depois, o rio voltou a brilhar em todo o seu esplendor. O ar cheirava a flores e as crianças corriam novamente nas suas margens, os adultos, envergonhados e inspirados, prometeram nunca mais deixar o lixo a controlar a natureza. Houve até uma festa para celebrar! Noa, subiu para uma grande pedra e disse:
– A generosidade é como este rio, quando damos, a corrente leva a bondade para longe e ela volta multiplicada.
Mais tarde, nessa noite, Noa acordou com o som suave da água a bater nas pedras. Levantou-se e foi até à margem. Ali, sozinha, ouviu um murmúrio leve, o rio parecia falar:
– Obrigado por me ouvires, minha pequena. Quando alguém dá de coração, a vida volta a fluir.
Noa sorriu e voltou para a cama.
Desde então, a aldeia recompensa quem apanha lixo do chão, dando uma pequena pedrinha azul, símbolo do rio. Quem consegue juntar dez pedrinhas, pode trocar por uma muda de planta.

