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Há alguns anos participei numa atividade com várias turmas do pré‑escolar que me virou as expectativas do avesso. Eu ia preparada para orientar, ajudar, puxar pela imaginação dos mais pequenos. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário e isso ensinou-me mais sobre criatividade do que muitos livros.

A atividade era simples: escrever uma história em conjunto com as crianças, pedindo que elas sugerissem personagens e suas características, o cenário e os problemas. A  ideia era deixar as ideias fluírem livremente, por muito disparatadas, improváveis ou sem lógica aparente.

Sendo crianças entre os 3 e os 5 anos, pensei que os mais pequenos fossem precisar de ajuda das educadoras para participarem. Mas as crianças mais pequenas conseguiram participar de forma automática espontânea e sem filtros, enquanto os mais crescidos se mostraram mais inibidos, hesitantes, necessitaram do incentivo das educadoras e acabaram por apresentar ideias mais “adequadas”, “dentro da caixa”.

Isto fez-me refletir sobre a forma como nos vamos desligando da nossa criança interior, à medida que crescemos. Como trocamos a espontaneidade pela cautela, a curiosidade pela resposta certa, a imaginação pela lógica. E, sem darmos por isso, a criatividade começa a encolher.

O que nos afasta da nossa criança interior?

A fase mais ativa da criatividade acontece logo na primeira infância e, ao crescer, começamos a perder esta capacidade de imaginar livremente. É um processo é natural e faz parte do desenvolvimento infantil. E justifica-se por alguns dos seguintes motivos:

  • o facto de se privilegiarem atividades excessivamente estruturadas face às criativas
  • foco na resposta correta em relação ao pensamento que levou à mesma
  • a não valorização das ideias da criança
  • medo de errar e das críticas

Muitos destes aspetos, que se manifestam quando somos crianças, acabam por se tornar  desafios que nos acompanham – e se agravam –  na idade adulta. E quando começamos a escrever, quer tenhamos consciência disso ou não, condicionam a nossa escrita. Entrar em contacto com a nossa criança interior pode ajudar-nos a entrar em contacto com a nossa essência e o nosso propósito. E isto é particularmente importante quando escrevemos para crianças.

O que a escrita ganha quando entramos em contacto com nossa a criança interior?

Quando voltamos a ouvir a nossa criança interior, a escrita reencontra a sua liberdade natural. Ao recuperarmos a nossa criança interior somos capazes de:

Isto contribui para que a nossa escrita infantil se torne mais rica, verdadeira e, ao mesmo tempo empática, porque ao fazê-lo é como se estivéssemos a colocar-nos no lugar da criança.

Mas, ainda que seja um exercício enriquecedor, não é necessariamente fácil libertarmos-nos das camadas de filtros que vamos acumulando ao longo dos anos: o filtros da auto-crítica, do receio da exposição e do julgamento externo, da auto-sabotagem, entre outros.

Para ajudar a dar o primeiro passo, gostaria de partilhar 3 dicas para a recuperares a tua criança interior:

  1. Lê livros infantis, sobretudo o que têm muitas ilustrações. Toda a gente sabe que para escrever é preciso ler, mas acredito que muitas vezes nos esquecemos de incluir os livros infantis. Mais do que tentar perceber o que é feito em termos de literatura infantil (o que também é útil, claro) este exercício tem o objetivo de ajudar a entrar no imaginário infantil, naquele mundo que às vezes nos parece absurdo, mas está cheio de simbologia e significado.
  2. Executa atividades que ajudem a desligar a mente. Para algumas pessoas pode ser a meditação, para outras caminhar, estar em contacto com a natureza, ouvir música ou dançar. A atividade em si não é relevante, desde que te permita, por alguns momentos que seja, desligar os “filtros de adulto”.
  3. Permite-te brincar. Se tens filhos, sobrinhos ou alunos na primeira infância brinca com eles, mas entrega-te completamente, permitindo-te entrar a 100% na brincadeira. Mergulha no mundo dos fortes de almofadas, das cozinhas de lama e das corridas sem motivo. Certamente que isso te fará dar algumas gargalhadas espontâneas, mas acima de tudo, ativar a tua criança interior e a tua mente criativa de uma forma muito mais eficaz.

O crescimento e a entrada na idade adulta acarretam responsabilidade, rotina e isso parece, de alguma forma limitar a nossa criatividade. Para quem, tal como um escritor de literatura infantil, depende da sua criatividade para servir o seu público-alvo e alimentar a sua própria criatividade, é importante tentar recuperar o contacto com a sua criança interior e dar-se autorização para aceder às partes mais criativas da sua mente. Mesmo que seja impossível voltar ao estado altamente criativo da primeira infância, é importante que reservemos momentos para voltarmos a ser crianças e a experimentar o mundo tal como elas o veem.

Afinal, numa sociedade em que as crianças cada vez mais cedo são expostas a questões sérias do mundo atual, importa conseguir preservar a sua magia interior, o máximo de tempo que nos for possível.

Nota: Se sentires vontade de continuar a explorar a tua criatividade e a tua criança interior, convido-te a seguir o meu Substack ou a juntar-te à Tribo de Autores — onde estas conversas ganham ainda mais vida.

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