Um conto por Tânia Augusto
Adoro comboios e um dia sei que vou ser maquinista.
A mãe leva-me sempre com ela, quando tem de ir a Lisboa. Sabe que a estação do Rossio é a minha favorita e quando posso ir, são as melhores tardes do mundo.
Ultimamente quando fazemos estes passeios, tenho pensado sobre algo que vi e não entendo.
– Mãe, posso perguntar uma coisa?
– Diz, meu querido.
– Eu vi pessoas crescidas a dormir no chão, algumas estavam com cara triste. Mas, não tinham camas, era papel, daquele parecido ao que o avô tem a televisão guardada no sótão.
E sempre que passeamos no comboio em Lisboa, há pessoas no mesmo lugar. Porquê?
– Bem, algumas destas pessoas não têm casa. Estão numa situação difícil entendes?
– E os seus pais? Eles não têm família?
– Alguns sim, outros talvez não. A verdade é que os crescidos às vezes têm problemas muito grandes e precisam de ajuda para os resolver.
– Como eu naquela vez que não sabia como fazer as pazes com o meu amigo?
– Sim, meu amor, as pessoas que viste a dormir na rua e algumas na estação, são iguais a qualquer outra, o que acontece é que nem sempre sabem o que fazer com algumas coisas que acontecem na sua vida e é preciso ajudá-las.
Nesse dia, não consegui parar de pensar na conversa com a mãe. Ouvia-a falar com o pai sobre alguma coisa que tinha a ver com sem abrigo, acho que falava dessas pessoas que vi em Lisboa.
Na manhã seguinte, levantei-me cheio de energia, tinha acabado de ter uma ideia incrível, mas, precisava de ajuda dos pais.
Sentei-me rapidamente na mesa, devorei o meu pão em segundos e quase me engasgava com o leite.
– Calma Gabriel, assim ainda ficas com dores de barriga. Porquê a pressa? Perguntou-me a minha mãe.
– Mãe, pai, tive uma ideia. Eu tenho muitos brinquedos que não uso, alguns já nem me lembrava deles. Quero vender coisas que não preciso.
– Queres fazer uma espécie de venda de garagem?
– Sim.
– Podemos perguntar porquê? Tens alguma coisa que queiras comprar é isso?
– Não. Tu disseste que as pessoas que não têm casa precisam de ajuda, o meu quarto é pequenino não dá para todos dormirem na cama de encher, então pensei que podíamos comprar mantas quentinhas, algumas roupas ou comida para ajudar um bocadinho. Eu quando tenho fome não consigo pensar bem, nem quando estou com frio ou sono.
Os meus pais olharam para mim e vi cair no rosto da mãe uma lágrima.
– Estas triste com a minha ideia mãe?
– Não meu amor, estou com o coração tão feliz que choro de alegria, porque tu queres vender coisas tuas para ajudar pessoas que precisam, isso é de uma generosidade que não tem medida. Devemos ajudar quem precisa o ano todo, e tu, tão pequeno teres esse coração tão gigante deixa-me muito feliz.
O pai levantou-se da mesa e ajoelhou-se junto a nós.
– Vamos fazer assim, vais selecionar o que já não usas, nós faremos o mesmo e vou falar com o resto dos vizinhos para se juntarem a nós, existem associações que ajudam estas pessoas sem abrigo e podemos todos juntos entregar coisas que precisem, que te parece?
– Sim, estou tão contente, posso ir contigo falar com os nossos vizinhos?
– Claro, afinal a ideia foi tua.
Fizemos uma venda de garagem, no quintal da casa da D. Carolina, ela fez bolinhos para vender e até nos deu um lanchinho.
Conseguimos algum dinheiro, comida, mantas, casacos e outras coisas que o pai levou até à Associação que ajuda as pessoas sem abrigo.
A minha mãe diz muitas vezes que quando somos bons para o Universo, o Universo é bom para nós, que o amor é capaz de mudar o mundo, eu acredito nela, afinal, lembro-me de todas as vezes que ela separa roupas que não usa e entrega na Igreja do padre Francisco, disse-me que muitas pessoas não as conseguem comprar e, assim podem dar-lhe bom uso, ou das vezes que a D. Tânia lhe pede para ler as cartas, a mãe diz que ela já não vê muito bem.
A mãe diz que fazer bem aos outros aquece o coração.
Senti alguma coisa no meu, não sei se era calor, ou uma magia qualquer, porque na verdade nessa noite recebi o melhor presente que podia pedir, ver os olhos dos meus pais muito brilhantes porque fui capaz de dar amor a quem mais precisava dele.

