– Tirem-me daqui!
O som ecoou pela casa de banho. Santiago olhou ao seu redor tentando perceber de onde vinha aquela voz. A porta e a janela estavam fechadas. Não havia mais ninguém ali com ele.
– Devo estar a alucinar… – pensou.
– Tira-me daqui! Ei, tu aí, estás a ouvir-me? Tira-me daqui.
Definitivamente não era uma alucinação. Era uma voz bastante real, apesar de fraca.
– Tiro-te de onde? Mas quem és tu, afinal?
Santiago estava cada vez mais confuso. Revirava as toalhas e os objetos de higiene dentro do armário à procura de alguém a quem pudesse pertencer aquela voz, embora não conseguisse sequer imaginar quem, ou o que poderia ser.
– Da sanita! Isto cheira mal, que horror! Despacha-te!
Aquilo estava a tornar-se cada vez mais estranho, mas aproximou-se e espreitou para dentro da sanita, um bocadinho a medo. Seria algum monstro? Uma alma penada? Ou até um animal?
– Depressa, TIRA-ME DAQUI!
A voz soou mais alta, desesperada e um bocadinho zangada.
Apesar de ter alguma dificuldade, Santiago finalmente conseguiu ver uma gota que se distinguia das outras, na água da sanita. Muito redondinha, azul e brilhante.
Pegou numa embalagem usada de champo que tinha deixado no chão do chuveiro para levar para a reciclagem e cuidadosamente retirou a pequena gotinha para lá.
Ainda bem que ainda não tinha usado a sanita, pensou para consigo próprio.
– Finalmente! Finalmente estou a salvo! Obrigada!
– A salvo de quê?
– De quê? Ora que pergunta, daquela imundice da sanita. Nem acreditei quando fui lá parar. Estava à espera de um final mais interessante para a minha aventura.
– Aventura? Mas tu és apenas uma gota de água…
A gota Glubi olhou para ele com um ar de poucos amigos para Santiago que continuava confuso com o que lhe estava a acontecer.
– Apenas… Enfim… Tu não sabes o que dizes, está visto. Pensas que essa água com que descarregas o autoclismo ou com que tomas banho aparece por magia, é? És bem capaz de ser um desses…
– Desses?
– Sim, uma dessas pessoas que gasta água sem consciência de todo o esforço que implica chegar até aqui. Às tantas até… desperdiças!
Disse aquela última palavra, como se estivesse a pronunciar um palavrão. Daqueles bem cabeludos e feios.
– Por acaso até me preocupo bastante com essas questões, pois sei que nem toda a gente tem acesso a água ou saneamento.
Mas ela continuou como se nem sequer o tivesse ouvido.
– Eu sentia-me presa lá no céu naquela nuvem, sempre a olhar para o horizonte, era uma chatice. Foi então que me atirei…
– Precipitaste…
– Não, foi uma decisão bem consciente, não foi nada precipitada.
– Não é isso… Quando a água cai da atmosfera para a terra, chama-se precipitação.
– Está bem, está bem, como queiras… Foi então que me precipitei… Olha que isto continua a soar muito impulsivo da minha parte. Além disso, eu não caí em terra, foi num rio… Achas que posso continuar a minha história sem me interromperes por causa desses pormenores técnicos?
– Ok…
– Como eu estava a dizer, fui parar ao rio, mas aquilo não era muito mais entusiasmante do que a nuvem. Bom, em vez de pássaros via peixes e em vez de levar com a poluição atmosférica, tinha de aguentar os plásticos… Mas depois de fazer umas excursões ao fundo do leito, senti que já estava tudo visto. E havia tanta concorrência, sabes?
– Concorrência?
– Sim, milhões e milhões de gotas por todo o lado. Todas com a mania de que eram as mais belas, mais puras e cristalinas. Aquilo era ainda pior do que a nuvem. Tentei afastar-me, mas quando dei conta estava a ser sugada.
– Sugada?
– Sim, para um lugar escuro e depois de muitos encontrões fui dar a um campo de couves.
– Devia ser um canal de rega.
– Talvez. Ao início até nem achei desagradável, para além das couves conseguia ver alguns insetos, o céu visto cá de baixo – olha que é muito diferente do que se vê lá de cima. Mas depois…ai…
A pobre gotinha estremeceu só de lembrar o que se tinha seguido. Isso despertou ainda mais a curiosidade de Santiago.
– O que aconteceu depois?
– Comecei a ser puxada para dentro da terra.
– A ser infiltrada, portanto.
– Não, não virei nenhum agente infiltrada. Simplesmente aconteceu começar a deslizar entre a terra.
– Não é isso… Infiltração é o processo em que a precipitação entra na superfície terrestre.
– Outra vez? Mas tu és o policia dos conceitos ou quê? Posso continuar a minha história ou não?
– Pronto, pronto, continua… É só que eu gosto de geografia…
Embora um pouco impaciente com as interrupções, a gotinha Glubi lá acedeu a continuar a descrever a sua aventura.
– Bom, continuando. Quando me comecei a infiltrar – como dizes – comecei a sentir um sabor horrível na minha boca e aquilo queimava e cheirava mal.
– Era adubo, de certeza…
– Pois, não sei, só sei que foi a pior coisa que me aconteceu. É capaz de ter sido pior do que a sanita! Mas que remédio tive eu senão continuar a enfiar-me pela terra abaixo. E ainda bem que o fiz, porque comecei a sentir-me mais limpa. A certa altura enterrei-me tanto que fui dar a um rio subterrâneo. Nem sabia que existia tal coisa. Como deves imaginar, nunca tinha visto nenhum lá de cima da nuvem.
– Calculo que não. Mas imagino que não fosse muito mais animado do que um rio à superfície.
– Pois, não se passava nada de nada. Bom, percorri quilómetros e quilómetros e vi galerias e grutas espetaculares, mas já estava a ficar farta.
– E como é que saíste de lá? – quis saber Santiago.
– Voltei a ser sugada, desta vez para superfície. E fui parar a uma fábrica de água?…
– Uma estação de tratamento de água.
– A partir daí foi um terror. Sempre a entrar e a sair de tanques, a fazerem-me análises como se estivesse doente e depois, como se não bastasse, meteram-me em canos. Da primeira vez saí por uma torneira diretinha para o banho de alguém. Depois voltei para os canos, mas desta vez canos sujos, seguidos de tanques imundos…bhahhh
Santiago sabia que se tratavam de águas residuais que tinham sido encaminhadas para as estações de tratamento de águas residuais, mas nem se atreveu a abrir a boca para partilhar com a gotinha.
– E para terminar, voltaram a enfiar-me noutro cano e vim parar à tua sanita… ai de mim… ninguém merece. Eu só queria voltar á minha nuvem.
– Bom, a verdade é que podes andar tempos e tempos nesse ciclo de tratamentos, mas acho que te posso ajudar.
Como conhecia muito bem o ciclo da água, Santiago sabia que a se conseguisse que a gotinha fosse evaporada, talvez ela conseguisse voltar ao ciclo natural da água. Por isso, pegou na embalagem do champô e levou-a até à varanda onde o sol já aquecia com vontade, àquela hora da manhã. Derramou-a no chão e disse-lhe:
– Pronto, deixa-te estar aqui quietinha e espera que o calor faça o seu trabalho. Se tudo correr bem, daqui a algumas horas estarás novamente na atmosfera.
– Obrigada!
Tal como Santiago tinha previsto, ao fim de algumas horas de intenso calor, a gotinha já não estava lá. Mas continuou no seu pensamento. Aquela aventura não podia ser em vão. Iria partilhá-la com o mundo, para que todos soubessem que a água é um recurso escasso e que percorre um longo caminho até chegar às nossas casas..

