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Desde que nascera, Júlia sempre fora uma criança sorridente. Contagiava todos com a sua alegria e as suas pequenas risadas.

Mas à medida que fora crescendo, as gargalhadas tornaram-se mais sonoras e inconvenientes.

– Júlia, deixa-te de brincadeiras e copia a lição! – dizia-lhe a professora na escola.

– Júlia, ri-te com modos, estão todos a olhar – dizia a mãe quando saiam de casa

– Júlia, estamos na missa, não te rias! – dizia o pai aos domingos de manhã, quando por algum motivo ela achava piada à forma como o padre levantava as sobrancelhas enquanto falava.

Até mesmo as amigas começaram a afastar-se dela, porque a forma como se ria não era “fixe”.

Com o tempo, Júlia, que sempre se tinha rido com prazer, começou a sentir-se envergonhada e a reprimir o seu riso. Ela tentava fazer menos barulho, ela cobria a boca com as mãos e baixava o olhar. De tal forma que, quando foi para a escola dos grandes, já não costumava rir. Tinha-se tornado uma pessoa séria. Tão séria que colegas não se aproximavam muito dela, pois não a achavam divertida. 

Nos corredores, algumas vozes sussuravam:

 – Lá vai a mal encarada!

 – Ai, ela é sempre tão sisuda!

 –  Olha a Miss Antipatia…

Entre outros comentários…

Ao início, Júlia não se importou, pois tinha-se habituado a ficar sossegada no seu canto, a não se deixar notar, mas aquilo não parava e acabou por ficar doente. Tinha perdido peso, andava sempre cansada, com dores de cabeça ou de barriga. Foi a vários médicos, fez vários exames, mas ninguém sabia ao certo o que se passava com ela. A mãe chorava todas as noites de preocupação e o pai deitava-se tarde, a pesquisar no computador sobre doenças e médicos que a pudessem ajudar. 

Até que um dia foi a um médico que em vez de uma bata branca vestia uma bata cheia de cores e disse:

– Ela está deprimida!

– Isso pode lá ser! – respondeu a mãe, pouco convencida com a credibilidade do doutor colorido – Ela não anda triste. Ela tem problemas físicos. Não vê os exames?

O médico explicou-lhes que a depressão não é só tristeza, é uma doença que afeta muitas dimensões e pode manifestar-se de diferentes formas em cada pessoa.

Júlia não se atreveu a abrir a boca, mas foi para casa a pensar naquilo. 

– Será que alguma vez vou voltar a rir como antes? – perguntou para o vazio do seu quarto, mas a única resposta que teve foi a das lágrimas que lhe caíram pelas faces até adormecer.

No dia seguinte levantou-se e, por sugestão dos pais foi dar um passeio. 

– Talvez o contacto com a natureza te anime! – dizia o pai.

Mesmo sem vontade, ela concordou. Deu duas voltas ao parque e resolveu sentar-se a olhar a paisagem. Nisto, sentiu algo a atingi-la na cabeça. Pensou que pudesse ser uma bolota que tivesse caído da árvore, mas aquilo continuou. Resolveu então procurar a origem daquele mistério.

No alto de um ramo viu dois pequenos esquilos a fazerem malabarismos com as bolotas, enquanto lhe faziam caretas.

Júlia não queria acreditar no que os seus olhos viam, mas apesar de os ter esfregado duas vezes, continuava a vê-los.

– Anda, brinca connosco! – ordenou um deles.

–  Não fiques aí parada, que daqui a nada é noite. – acrescentou o outro.

Ela continuava incrédula e imóvel. Então, viu o esquilo mais atrevido, a pegar numa enorme bolota e a fazer pontaria bem ao alto da sua cabeça.

– Criaturinha malvada, espera aí que eu já te mostro o que é bom!

Baixou-se a pegou em todas as bolotas que cabiam na sua mão, arremessando-as sem parar. Os esquilos eram ágeis e desviavam-se da maioria delas, mas uma acertou mesmo na barriga de um dos esquilos que caiu redondo num monte de folhas.

– AHAHAHAHAH, toma que é para aprenderes!

Sem sequer se dar conta, Júlia acabava de soltar uma ruidosa gargalhada, tal como acontecia quando era criança.

Ainda mal tinha acabado de se rir e já sentia uma nova chuva de bolotas a cair sobre si, acertando-lhe na cabeça, nos braços, nas pernas.

– AHAHAHAHAHAHA, AHAHAHAHAHA, AHAHAHAHA. Parem, parem! Já me dói a barriga de tanto rir.

Enquanto rebolava no chão, não conseguia deixar de pensar que afinal sempre conseguia rir.

Apesar disso, Júlia demorou vários meses a conseguir curar-se. Mas de vez em quando voltava ao parque à procura dos seus amiguinhos com os quais podia sempre contar para dar umas gargalhadas.

Quando cresceu tornou-se uma doutora palhaça, pois sabia muito bem que rir, por si pode não ser um remédio, mas é muito importante para manter a saúde!

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