Um conto por Cláudia Martins
Detesto o Natal. Já o disse e volto a repetir: detesto.
Músicas que tocam o tempo todo em casa e que fazem pensar porque é que esta época é assim tão especial. As crianças pobres e as que vivem nos países em guerra também celebram o Natal? E as famílias que contam com menos um lugar à mesa? Como é que tudo isto funciona?
O avô não estará connosco este ano. Nem nos próximos anos. O tempo dele acabou e ainda não consigo imaginar o dia e muito menos um Natal sem ele. Não sei o que pensar nem como encarar isso.
Como falar sobre o meu avô, quando todos parecem querer comemorar uma época de paz, amor e família sem ele? Está ainda tão presente em mim, converso com ele todos os dias no presente do indicativo, mas todas as outras pessoas usam o pretérito perfeito. É um exercício gramatical a que ainda não me habituei e que detesto fazer.
O Pai quer manter as tradições… todas as que tínhamos com o Avô. Como se nada tivesse mudado! Almoçar em Esmoriz, perto da praia – o vento à beira-mar que corta o nariz como pequenas navalhas, os gorros de Natal, as camisolas de malha a combinar. E ninguém fica tão engraçado como o Avô com as camisolas mais feias do ano. Quem vai aquecer as mãos e coloca-las sobre o meu nariz frio se não for meu Avô?
Pelas mesas do restaurante passeia-se uma gata gorda. Alimenta-se bastante bem, ao que aparenta – e ela aparenta bastante! A Mãe encanta-se com ela, que se rebola nos bancos corridos de madeira, onde nos sentamos em fila. Enquanto rebola aquela barriga gigante, ergue uma pata, depois a outra, agarra a unha à malha natalícia, chama o braço para si, desde que a mão esteja a segurar uma gamba fresca.
O dono do restaurante pede que não a alimentemos, senão “habitua-se e não sai mais daqui”. Qual a alternativa, então? Deixá-la passar fome?, pergunto. Olha-me de soslaio e continua a sua vida. Acho que nunca pensou realmente acerca do que diz…
A Mãe abre a carteira gigante que tanto gosta de usar (agora percebo porquê!), esboça um sorriso traquina, pisca-me o olho e num gesto apenas, guarda a gata gorda. “Se não pode comer aqui, come em casa! O teu avô iria adorar a Bebé”.
É praticamente a única coisa que sabemos acerca da gata gorda: chama-se Bebé, mas de bebé já não tem nada. Terá à volta de uns 15 anos e também ela perdeu o norte quando a sua tutora faleceu.
Não compreendo a ideia da Mãe, resgatar uma gata sénior e em luto. Disse-lhe isso, mas ela só acha estranho o facto de eu não querer acolher um animal. Não se trata disso, juro! Só sei como ela se sente e se não consigo ultrapassar a perda do Avô, como vou ajudar a Bebé a ultrapassar a perda da sua tutora?
São estes os pensamentos que me arrasam quando todas as manhãs tento cumprimentar a Bebé e sou ignorada. Os animais têm uma forma incrível de nos lerem as entranhas.
Dia a dia, vou conhecendo-a melhor. A Bebé é tudo aquilo que gostaria de ser mas as normas sociais não permitem. Zangada? Parte-se uma jarra. Demasiados estímulos visuais e auditivos? Sai pela varanda, vai dar uma volta ao quarteirão. Banhos de sol e silêncio? Entra no pátio do vizinho e ocupa uma espreguiçadeira. Olha todos com desdém. Questiona as escolhas de vida de todos, excepto as suas, porque é perfeita e a idade ensinou-a que, faça o que fizer, coisas más continuarão a acontecer. Pedir autorização? A quem e para quê? Não faz mal a ninguém, é só uma questão de manter a sanidade.
Está a demorar, mas o luto também demora. Lentamente, vou compreendo porque é que a Mãe insistiu trazê-la para nossa casa. Compreendemo-nos, sentimos o mesmo desnorte e ultimamente, temo-nos apoiado uma na outra. Mesmo não tendo conhecido o Avô e eu não tendo conhecido a sua paciente tutora, sentimos a tristeza que se entranhou em cada uma.
A diferença antes de Esmoriz e após Esmoriz é que agora tenho uma companhia que, em silêncio, diz tudo o que preciso ouvir. Juntas, vamos ultrapassando normas e sociais e barreiras emocionais. Somos capazes de oferecer o colo uma à outra, como um dia fizeram connosco. Os que já cá não estão. Não falo no Avô no pretérito perfeito nem na tutora da bebé porque a presença deles é palpável, está aqui, em cada uma de nós.
Se há presente de Natal perfeito, é a minha Bebé. A minha melhor amiga. E o Avô e a sua tutora Manuela concordam.
*este texto é dedicado ao José Carlos Campos que, não sendo necessário passar para palavras, o sentimento de falta continua a pairar em todos os que o conheceram e com ele tiveram o privilégio de privar.
Também à minha amiga Bebé, gata sem regras mas de uma lealdade incrível, que sobreviveu à perda da mãe humana e me adoptou. Salvou-me várias vezes ao longo dos quase 6 anos que estivemos juntas, fez dos amigos vizinhos e de mim alguém que, sentindo o luto em várias situações infelizes, foi feliz ao seu lado.
Obrigada aos dois. Foi verdadeiramente um privilégio ter-vos como amigos.

