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Um conto por Susana Machado

Toda a casa cheirava a bolos e a bolachas naquele final de tarde. A mãe é daquelas pessoas que gosta de perder horas a fazer coisas que pode comprar em cinco minutos numa loja. Tenho de confessar que gosto do cheiro, embora preferisse que ela passasse esse tempo a brincar comigo.

Às vezes ela desafia-me a ir com ela para a cozinha e entre nuvens de farinha acabo por me divertir, mas não era o caso naquele dia. Queria mesmo brincar com os legos, que há muito tempo estavam abandonados no fundo do armário dos brinquedos.

– Mãe, anda brincar comigo!

– Agora não posso mesmo, meu querido. Tenho uma fornada para tirar do forno e outra para entrar daqui a nada. Vai andando que eu já lá vou ter.

Já sei como funciona essa coisa do “já lá vou ter”. Torci o nariz e franzi o sobrolho. O armário dos brinquedos fica no primeiro andar e a penumbra que já fazia adivinhar a noite não era nada convidativa.

-Mas… e se aparece algum monstro? Bem notei o esforço da mãe para não se rir, mas fiz de conta que não.

-Os monstros não existem, filho! Podes ir descansado! Deu-me um beijo na testa e afagou-me o cabelo, enquanto me encaminhava para as escadas. O único problema é que A MÃE NÃO SABE NADA!

Acendi todas as luzes no meu, aparentemente curto, trajeto até ao quarto dos brinquedos, no qual entrei a passo acelerado até ao meu destino: o armário dos legos, como se os meus passos fossem mais rápidos do que os de um monstro, armei-me com a minha espada de ninja e comecei a construir as naves para a minha batalha inter espacial.

Tinha já metade da frota construída quando comecei a ouvir um barulho estranho. Seriam os ratos que a mãe diz que costumavam dançar no sótão quando compramos a casa? Ou o fantasma do homem misterioso que a mandou construir e que eu desejava ardentemente conhecer, só para lhe poder perguntar como era viver na sua época?

Ou seria ele? O monstro que eu tanto temia?

Procurei a espada de ninja, mas no meio dos testes para a batalha, já lhe tinha dado um pontapé que a mandara para debaixo da cama e esse era o último sítio onde me queria enfiar, já que, como todos sabem, é exatamente aí que se escondem os monstros.

Olhei em redor, em busca de outra defesa ou de uma escapatória e preparava-me para gritar em planos pulmões pela ajuda da mãe, quando o vi, debaixo da janela.

Ali estava ele, o monstro assustador que não me deixava apagar a luz na hora de dormir.

Olhei bem para ele. Um enorme pelo azul, mais de cem dentes afiados na boca e uns olhos amarelos esgazeados compunham a figura daquele monstro de 30 centímetros de tamanho. Ele libertou um som abafado, pela sua boca mal cheirosa e eu… eu desatei a rir.

Acho que nunca tinha rido com tanta vontade na minha vida e penso que cheguei até a rebolar no chão. Quando finalmente consegui parar, ele olhava para mim, com um ar indignado.

-Porque estás a rir? Do que estás a rir? É de mim, é?

Oh céus, seria possível ter magoado os sentimentos de um monstro? Nunca me tinha ocorrido que os tivessem.

Olhei novamente, com mais atenção e, debaixo daquela aparência desgrenhada, consegui perceber o seu semblante triste. E isso fez-me sentir mal comigo mesmo. Mas não havia volta a dar, o mal estava feito.

-É sempre assim, nunca me levam a sério. O que tenho eu de errado?

-Pronto, pronto, não te queria ofender. Desculpa lá. Mas…pensando bem, tu querias assustar-me. Isso também não é lá muito bonito, pois não?

-Mas esse é o meu trabalho! É para isso que serve um monstro. Só te assusto para te ajudar a lidares com os teus medos.

Eu preferia lidar com eles à minha maneira, mas não disse nada. Já o tinha ofendido o suficiente.

-Queres brincar comigo?

A pergunta era um gesto de paz, mas ele ficou ainda mais irritado.

-NÃO! Não podes brincar com um monstro. Eu quero que fiques assustado! MUITO assustado!

Enquanto dizia essas palavras dava pequenos pulinhos no chão, com as garras apontadas na minha direção, o que o fazia parecer ainda mais cómico.

– Eu tenho-te muito medo, a sério. Todas as noites me assusto com a possibilidade de estares debaixo da minha cama e ainda agora tremia como varas verdes antes de apareceres. Mas depois vi-te e…

– E O QUEEEÊ?!!! – gritou, dessa vez sim, de uma forma bastante assustadora. Não consegui evitar de me encolher e acho que ele percebeu, pois tenho a certeza que lhe vi os olhos brilharem um bocadinho.

Foi nessa altura que percebi que, no fundo, quer sejamos crianças, adultos ou mesmo monstros, todos temos algo em comum: gostamos de sentir que somos bons naquilo que fazemos.

Por um momento ocorreu-me fazer-lhe o discurso que a mãe não se cansa de me repetir, sobre a importância da auto-estima e de nos preocuparmos mais com o que nós próprios pensamos do que com os julgamentos dos outros. Mas, sinceramente, não me pareceu que ele precisasse disso naquele momento.

Por isso limitei-me a ficar encolhido e a responder:

– E… nada… quis fazer-me forte, mas és realmente muito assustador. Por favor, não me faças mal!

Não, sei se ele acreditou ou não, mas sorriu de contentamento. Nesse momento ouvi a porta abrir-se e a mãe dizer:

– Bolachas quentinhas! Quem quer bolachas quentinhas?

Dei um salto. A mãe consegue ser mais assustadora do que o monstro. Quando olhei em redor já não o vi em lado nenhum. Não sei se o voltarei a ver, mas tenho a certeza que não voltarei a ter medo de apagar a luz, depois de o ter conhecido.

Por vias das dúvidas, todas as noites desde então, tenho deixado umas bolachas ao lado da cama… não vá ele ainda estar chateado comigo.

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