Um conto por Isabel Quinta Faria – @sentiraeseencia (instagram)
Era o Dia das Candeias de Nossa Senhora da Conceição. Todos se reuniam no adro da igreja, junto ao tapete de flores, para dar início à procissão das velas. O crepúsculo despedia-se lentamente, enquanto os habitantes da aldeia distribuíam velas protegidas por copos de papel.
No meio das tias e dos primos, Belinha, uma criança de oito anos, observava tudo com enorme curiosidade. Espantava-se com cada pormenor, arregalando os seus grandes olhos castanhos. Era a primeira vez que assistia a algo assim. Que beleza. Mesmo na escuridão, o tapete de flores brilhava com as cores alegres refletidas pela luz das velas.
A cantoria inundava a noite da aldeia, e as estrelas pareciam acompanhar os habitantes, como se os protegessem dos perigos da noite. Belinha sentia a seriedade de fazer parte de algo tão importante e sagrado e, ao mesmo tempo, uma fé simples e tranquila num mundo melhor. Não questionava, apenas sentia. Talvez fosse isso que tornava tudo mais verdadeiro.
Nesse momento, reparou que o calor da vela fazia derreter a cera, que escorria lentamente para dentro do copo. Aos poucos, uma imagem começava a formar-se. Primeiro parecia apenas uma bola de cera, depois surgiram uns braços e, mais tarde, umas pernas.
Uma pequena figura que lhe lembrava o Menino Jesus tomou forma, e Belinha sorriu por dentro. Talvez fosse por ser uma criança que conseguia ver ali o sagrado, porque o seu coração ainda não tinha aprendido a duvidar. Um pouco de cera, uma chama e uma vela bastaram para transformar aquele momento bonito num momento verdadeiramente único.

