Um conto por Margarida Teixeira Lucas
Maria da Paz era o seu nome. Fora decisão do pai ao ver sua filha nascer no Dia da Paz. Era a alegria da casa. O orgulho da família.
Mas a alegria durou pouco. Quando a filha começou a frequentar a escola, acabou-se a harmonia naquela casa. Os colegas da escola irritavam-na. Trocavam-lhe o nome e chamavam-lhe Maria Rapaz. Ela enfurecia-se e brotava chispas de raiva que lhe atravessavam as fartas pestanas dos seus olhos. Regressava da escola sempre aborrecida e reclamava com os pais:
−Mas que ódio! Não lembra a ninguém este nome de batismo. Só a mim!
−Mas o teu nome é tão bonito, filha… −repetia a mãe vezes sem conta, na esperança de a confortar.
−Que irónico! Chamo-me Maria da Paz, mas não consigo ter paz nenhuma! Sou alvo da troça dos meus colegas pois nunca me chamam pelo nome −queixava-se ela, com os olhos marejados de lágrimas que lhe teimavam rolar pelo rosto.
O ambiente em casa estava pesado. O pai saía de casa e escondia-se na noite. As palavras da filha ecoavam-lhe no pensamento. Já a mãe… ouvia-a com paciência, desejando que a alegria familiar regressasse àquela casa.
Sem solução à vista, os pais da Maria da Paz decidiram pedir ajuda à Rainha dos Nomes. Dizia-se que ela se vestia de bondade, envergando um manto luminoso como os raios matinais. O seu olhar era profundo e abraçava a alma dos visitantes, ricos e pobres, ajudando-os a resolver os problemas mais difíceis. Quem sabe? Talvez ela tivesse uma ideia para ajudar a filha a aceitar o seu nome.
Saíram cedo de casa, ainda noite cerrada. Calcorrearam montes e vales, entre planaltos e fraguedo. Caminhos difíceis de galgar.
Chegados à povoação, perguntaram pela casa da Rainha dos Nomes. As pessoas indicaram a direção, onde se via uma casinha branca, no cimo da colina mais alta que se avistava. Apressaram o passo, enveredando por um caminho íngreme e tortuoso. Apoiaram-se um no outro. A esperança crescia-lhes a cada passada.
Quando alcançaram a casa, Sua Majestade percebeu-lhes o cansaço do corpo e mandou-os entrar e sentar. Ouviu-os com atenção e mandou um pajem servi-los. Precisavam de aconchegar o estômago.
A rainha sentou-se na sua escrivaninha e escreveu uma mensagem. As suas mãos, de uma brancura quase infantil, despertaram a atenção daquele casal, pela delicadeza com que escreviam. Sentiram-se confiantes.
Quando a rainha terminou, esta disse-lhes:
−Levem esta mensagem à vossa filha. Acredito que a ajudará a descobrir uma solução para o problema. Contudo, se não for suficiente, terão de a apoiar e descobrir outro nome que a faça feliz.
Sim. Era de felicidade que se trata. Os pais não podiam esquecer isso!
O regresso a casa pareceu-lhes interminável. Estavam cansados. Apreensivos. Mudar o nome acarretaria gastos exorbitantes para aquela família humilde.
−Quem dera que resulte −comentava o marido, procurando manter a esperança.
A mulher não respondeu. Não o queria preocupar. A ideia daquele nome tinha sido dele! Já lhe bastava esse enfado na cabeça. Um silêncio pesado acompanhou-os até casa.
A filha aguardava-os ansiosa. Também ela sentia necessidade de ver o seu problema resolvido. Queria deixar de ser alvo de troça dos colegas.
Os pais entregaram-lhe a mensagem e ela retirou-se para o quarto. Deitou-se na cama e admirou a leveza do papel pardo, encrustado de formatos floridos. Abriu a folha devagarinho e, nesse momento, libertou-se um canto maravilhoso que entoava de forma etérea e luminosa:
Maria da Paz
Qual delicadeza
Nome divino
Fulgura beleza.
És união
Tranquilidade
Buscas a paz
Também a verdade.
Maria da Paz, ter nome é um bem divino. Conserva a tua identidade.
Rainha dos Nomes
Os encantos daquela entoação produziram uma calma, jamais sentida.
Maria da Paz sorriu. O seu coração pulsou mais forte. Nunca tinha pensado que o seu nome podia ter um significado tão nobre. Pela primeira vez sentiu o seu nome, não como um fardo, mas como um presente precioso. Representava palavras fortes…. Mais poderosas do que todas as palermices que os seus colegas proferiam.
“Valerá a pena ouvi-los?”, pensou Maria da Paz.
Não dormiu bem. Toda a noite o seu pensamento lia e relia aquela mensagem.
Teve então uma ideia! Decidiu mudar de procedimento com os seus amigos. Em vez de pensar nas atitudes dos colegas como ofensas, passou a ignorá-los. Afinal, o importante mesmo eram os valores de verdade, tranquilidade e união que o seu nome carregava consigo.
A paz regressou à família da Maria da Paz, tal como o seu nome antevia.
Maria da Paz passou a ser chamada pelo seu nome. Nunca mais os amigos se enganaram.

