Porquê?
Esta é uma pergunta que muitas vezes não quer calar na nossa mente. Que nos apanha desprevenidos quando falamos com uma criança, sempre curiosa e determinada em obter respostas.
É uma pergunta que pode ser incómoda, que nos pode tirar noites de sono, lançar-nos para lugares desconfortáveis, onde geralmente não queremos estar.
Mas e se te disser que esta pode ser a questão que muda tudo e separa as águas de quem foste e de quem queres ser?
Não é um qualquer, este “porquê” a que me refiro, é o grande porquê, aquele que te move e te norteia enquanto escritora.
Quando escrevemos para crianças torna-se ainda mais importante perceber o que nos move. Enquanto escritores de literatura infantil temos uma grande responsabilidade pelo impacto que as nossas histórias possam ter sobre o nosso leitor.
Conhecermos o nosso propósito e escrever com ele em mente ajuda a dar profundidade, sentido e autenticidade às mensagens que transmitimos.
Neste artigo, vamos refletir sobre a busca pelo teu propósito de escrita, de como encontrá-lo traz direção e sentido às tuas histórias e como podes começar a descobrir o teu grande porquê, hoje mesmo.
O papel das emoções na motivação criativa.
Todos nós precisamos de um motivo para agirmos. Por vezes essa necessidade pode estar mais presente, outras pode-se manifestar por um vazio ou uma falta de algo que nem sabemos bem identificar. Quando isso acontece, a falta de propósito pode ser confundida por falta de vontade, de dinamismo, por comodismo ou preguiça e isso acaba por nos trazer danos em termos de autoestima.
Deixa-me dar-te o meu exemplo. Eu vivi uma boa parte da minha vida com um sentimento de que queria fazer a diferença no mundo e na vida das pessoas, mas sem fazer ideia de como podia fazer isso. Desta forma, eu ia tendo ideias, fazendo planos, mas acabavam por ficar pelo caminho e com isso, eu ia acumulando frustração e alimentando pensamentos negativos sobre o meu valor pessoal.
O mesmo acontecia com a minha escrita. Eu comecei a escrever por necessidade de me expressar e isso era bastante libertador mas, tirando isso, ia tendo ideias e começando rascunhos que raramente concluía. Não passava disso.
Com o tempo fui-me convencendo que não era capaz de acabar o que começava, que não tinha perfil para escrever, entre muitas outras coisas que não eram propriamente verdade. O que acontecia é que eu ainda não tinha encontrado o meu sentido para escrever. Percebi então que o que me faltava era ter uma direção.
E é aqui que entra a motivação, que só acontece quando temos um motivo claro para a agir. Esse motivo pode ser-nos externo ou interno. Pode manifestar-se pela fuga à dor ou pela busca por prazer.
Pensa neste exemplo: estás a escrever sobre uma personagem que está a dormir muito bem na sua cama e de repente o despertador toca. O que o vai fazer sair da cama, quando a mesma está tão quentinha e confortável? Por um lado, pode ser uma obrigação: ir para a escola, não levar um raspanete da mãe ou perder o lugar no autocarro. Por outro lado, pode ter algo simplesmente incrível para fazer nesse dia – ir a uma festa com os amigos, ver o filme que vai estrear no cinema ou até salvar o mundo – e nesse caso, é capaz de se levantar da cama, num pulo.
Geralmente não pensamos naquilo que nos motiva a sair da cama ou a fazer outras coisas mais simples, certo? É algo mais ou menos automático.
Pode acontecer o mesmo em relação à tua escrita e ela acontecer de forma espontânea. Mas se te queres comprometer, se queres começar a escrever mais regularmente, se tens a ideia de publicar um livro ou escrever algo que impacte verdadeiramente a vida de alguém, então se calhar está na hora de começares a pensar um pouco mais profundamente no porquê de o quereres fazer. E acredita, quando o fizeres, tudo ganha um novo sentido.
Como o “porquê” dá direção e autenticidade às histórias.
Tal como as personagens das tuas histórias têm um motivo para agirem de determinada forma, para a narrativa fazer sentido, o teu percurso enquanto escritor de literatura infantil também não pode ser aleatório.
Mas mais do que ter motivação para saltares da cama, num sábado de manhã para escreveres para crianças em vez de passares tempo com elas, tu precisas de ter uma razão maior, que reflita os teus valores e que oriente as tuas ações a longo prazo. Tu queres um propósito e é este grande “porquê” que vai acabar por definir a tua identidade enquanto escritor de livros infantis.
O propósito funciona como uma bússola que orienta a tua escrita. Quando perdes motivação, é a ele que tens de recorrer para te lembrares do grande motivo pelo qual escreves para crianças. Quando te desvias do caminho, ele está lá para te ajudar a encaminhar para o rumo certo. Quando estás em dúvida sobre seguir ou não determinado tema, é a ele que tens de questionar.
Escrever com propósito não significa que tenhas de escrever sempre sobre a mesma coisa ou que não possas sair da tua zona de conforto. O propósito pode sofrer alterações e ajustes ao longo do tempo, mas o seu núcleo forte, à partida, será sempre o mesmo, já que se baseia nos teus valores e identidade pessoais. Pode evoluir e ganhar camadas ao longo do tempo, mas aquilo que realmente te move tende a manter-se.
Exemplos de pequenas ações que podes fazer para encontrar o teu propósito enquanto escritor de literatura infantil
Se imaginarmos esta jornada como uma história, encontrar o propósito é quase como encontrar o Santo Graal e acredito que o mesmo te possa conferir poderes mágicos e de cura. Mas tal como a busca pelo cálice sagrado nunca é simples, nas diferentes histórias que foram criadas em torno do mesmo, a busca pelo propósito também tem os seus desafios e obstáculos. É possível que o maior deles, sejas tu próprio. Ainda assim, há algumas ações, relativamente simples que podes fazer para te ajudar nessa demanda:
Ouvir a tua voz interior – como acontece em grande parte das histórias, a resposta está sempre dentro do herói. Não há ninguém mais apto do que tu para descobrires aquilo que te move. Só precisas de saber ouvir, vencer as resistências e muitas vezes desligar os “filtros de adulto”. Ouve-te como se fosses uma criança. Pensa e questiona-te como se fosses uma.
Ler os teus textos – não há nada melhor do que os teus textos para refletirem a tua voz interior, certo? Procura reler as coisas que escreveste, eventualmente em diferentes momentos da tua vida. Há mensagens que se repetem? Há algo que sobressai nas entrelinhas? A resposta pode estar aí.
Perguntar a quem te rodeia – Estás a imaginar aquela personagem distraída que consegue ser um sabichão em relação aos outros, mas não vê nada sobre si mesma? Às vezes é isso que nos acontece. É mais fácil para quem está de fora ver como as peças se encaixam. Pergunta às pessoas com quem convives qual é a sua opinião sobre o que te apaixona, ou o que te tira do sério. As respostas poderão surpreender-te e ajudar-te a clarificar o teu propósito.
Escrever é algo que acontece naturalmente para muitas pessoas, mas escrever com propósito, para crianças, não é tão simples como parece. Os textos podem parecer simples e curtos, mas os desafios são complexos. Teres o teu propósito bem definido pode ajudar-te a lidar com eles, a encontrares a tua voz e a tua mensagem, bem como a definir o teu público-alvo.
Mas dificilmente será uma tarefa rápida ou isolada. É antes um caminho que tem de se percorrer, uma descoberta que se vai fazendo.. No fundo, tudo começa e termina no teu ‘porquê’ . Ele é o fio invisível que une as tuas histórias e constrói a tua identidade enquanto escritor de literatura infantil.

