Um conto por Simone Mourão
No centro de uma floresta qualquer, perdida entre o ontem, o agora e o depois, viviam o menino e a sua avó. A velha casa de palha e madeira onde moravam era a única que resistira ao chamamento da dita modernidade. O primeiro a voar em direção à cidade foi o Zé, o pai do menino. Depois, abriram as asas, a Tia-Margarida, o Primo-Miguel, a Madrinha-Ana, o Vizinho-Chico e outras tantas memórias e esperanças. A mãe do menino não foi porque já não existia. A avó permaneceu porque alguém precisava de guardar e proteger os sons da floresta, pois tudo que é vivo um dia finda, mas se estiver abrigado dos males da vida, um dia renasce e volta a habitar a terra.
O menino decidiu fincar raízes como a avó e aprendeu o ofício. Guardava o chilrear dos pássaros, o coachar dos sapos, os zumbidos das abelhas e dos besouros, o sibilar das cobras, o grasnar das gralhas, o guinchar dos macacos, o som do trovão, das águas dos rios e cascatas, o ranger dos troncos das árvores e o farfalhar das folhas em noites de vendaval.
Certo dia, enquanto andava à procura de outros sons para guardar, o menino ouviu algo diferente do habitual, um som distante, ainda pequenino. Correu para chamar a avó para investigarem juntos. No entanto, ela padecia das dores da idade e não conseguiu acompanhá-lo. O menino, então, decidiu ir sozinho. No meio do caminho, o som, que era pequenino e desconhecido, transformou-se num gigante aterrorizador que, sem querer esconder-se, mostrou a cara e a intenção.
Assustados, todos os bichos da floresta abandonaram as suas moradas e fugiram. Acabou-se a música? Acabava-se, assim, toda a melodia composta pelas mãos da natureza? Em questão de segundos, uma, duas, quatro árvores centenárias, despedindo-se da vida, choraram pela dor da partida, depois tombaram.
Quando viu o menino, ali, sozinho, com os olhos esbugalhados, a coisa, que gritava um barulho esquisito, emudeceu. Em silêncio, caminhou em direção a ele. Só então o menino reparou. Era um homem, embora fosse mais alto do que todos os homens nascidos no meio da floresta. Trazia nas mãos o tal objeto gritador, matador de árvores. O menino, apesar de assustado, perguntou-lhe se ele não sentia a dor dos outros. O homem, com os olhos cor-da-indiferença respondeu-lhe que só sente dor quem tem coração.
E com o coração a disparar, o menino contou o sucedido à avó. Só havia uma solução. Disse-lhe a avó. O coração não faz morada em todo corpo, mas todos os seres que andam têm medo do que não conhecem. Dito isto, o menino e a avó decidiram retirar as tampas dos recipientes que guardavam os sons da natureza. De súbito, os sons em conjunto, como uma orquestra infinita, espalharam a sua melodia por toda a floresta.
Atordoado, com a cabeça e os tímpanos a latejarem, o homem perdeu os sentidos, a memória, e, sem encontrar explicações neste mundo, perdeu-se no meio da floresta, a padecer dos males do esquecimento.
Tempos depois, a deambular por entre as árvores, o homem encontrou a velha casa de palha e madeira. A avó e o menino trataram das feridas do ser maltrapilho. Com o passar dos dias, os animais e todas as melodias características regressaram à floresta. O corpo do homem, embalado pela música que aprendera a ouvir, deixou de ser o mesmo, recebera um coração que a tudo escuta e se deixa envolver. O homem aprendeu com o menino guardador de sons que tudo ao redor é música. Sem ela, nenhuma sociedade consegue resistir, com ela, floresce a essência de gerações inteiras.


Luciana Morais