Um conto por Márcia Vieira Ávila
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Começa a azáfama de escolher roupas, pertences e prendas. Tudo para dentro da mala e o porta-bagagens cheio. Só uma bagagem por pessoa, tão ou mais controlado que nos aeroportos. Ou não fosse esta a viagem do ano.
Lá vamos nós, da metrópole à santa terrinha, rumo à quinta onde moram os avós.
Todos os anos é a mesma coisa. Toda a família reunida à volta da mesa um dia inteiro. Aliás, se repararmos bem, são vários dias no mesmo ritual. Aproveitar os tios e os primos que somente nesta época se juntam. Cardápios elaborados há mais de meses, e as promessas dos pratos favoritos já desde o ano anterior.
Apreciam-se as roupas novas e da moda da cidade. O último modelo de carro que o herdeiro mais velho comprou este ano. Todos os jogos e consolas que os pequenos exibem com euforia aos primos mais novos.
— É assim todos os anos e assim será enquanto cá andarmos. Diz a matriarca, de voz rouca e assertiva.
Correrias, bibelots que quase se desequilibram, mas ainda não é desta que se fazem em mil pedaços, tudo sob o olhar atento da tia solteira.
Petiscos aqui e ali, mais uma dieta que se vai. ‘Havemos de recomeçar quando voltarmos’ a promessa mais frequente, mesmo sem inquérito executado. Salta um queijo curado e uma chouriça fumada de cada canto da cozinha. Parecem ganhar vida própria. E com pão e tinto, satisfazem cada desejo recalcado.
Distribuem-se as pequenas lembranças, enquanto se abrem as malas e se ajeitam os modelitos na primeira gaveta das cómodas onde estavam, até há bem pouco tempo, as rendas que agora decoram a mesa da sala.
— E ai de quem as manche com vinho. Rabujam as velhas lá do fundo.
São as mesmíssimas histórias de séculos passados, também eles à roda da mesa, que já quase acabamos em coro as frases do avô e rimo-nos tanto ou tão pouco entre barrigadas.
Entre pratos e sopas, que só a avó sabe fazer, com receitas de família cheias de segredos e q.b. e um pouco ou mais ou menos, entre xícaras e colheradas que nunca os mais novos vão conseguir igualar em robots de cozinha do mais alto gabarito. Nada se comprara ao tempero da terra. Não há tachos nem fervedores como os velhos, de alumínio encardidos e marcados pela chama do fogão ou pelas brasas do forno a lenha.
Ressoam as gargalhadas; os gritos dos pequenos; os dominós a bater na mesa de madeira maciça do enxoval da Bisa.
Ou cartas da bisca, ou às damas, ou às copas. Todos jogam e se chegam à roda da mesa. Uns mandam jogar este ou aquele trunfo fazendo elevar o tom, outros puxam mais uma fatia de salame entre goles do fruto da última vindima.
Mais batatas se descascam, mais pão se coze e mais lenha se parte. É preciso dividir entre a que vai agora para o forno e os tornos para a lareira. “É que dá trabalho e faz calos!”
Vão-se buscar as fotografias antigas e, mais uma vez, se passam molduras empoeiradas de mão em mão que mostram: o bigodinho mal semeado ou os totós da moda de então. Ninguém escapa, na verdade, entre amuos e sorrisinhos nervosos, ninguém quer escapar.
São laços e memórias avivadas, mantidas à tona dos anos e das viagens. São raízes que se formam e se cultivam assentes em raízes que dão o ano todo entre pousios e apanhas.
Um dia alguém se lembra: — Que tal se eu escrevesse sobre isto? Devia registar estes momentos e estórias!

