Quando não vemos o óbvio

Há uns anos atrás resolvi fazer uma formação em primeiros socorros pediátricos. Tendo sido professora foi algo que sempre senti necessidade de saber.

Um dos temas que abordamos foi, claro, o envenenamento por substâncias tóxicas. E todos nós, creio, estamos conscientes que estamos expostos a essas substâncias no dia a dia, mas o que talvez não nos ocorra é que elas são tantas e nos estão tão próximas.

Lembro-me da formadora nos ter questionado sobre o que poderíamos fazer para prevenir os acidentes por envenenamento por substâncias tóxicas. As respostas mais óbvias e imediatas foram: colocar fora do alcance das crianças, em armários altos, fechados e nunca trocar as substâncias para embalagens que pudessem ser confundidas com bens alimentares (como colocar lixívia em garrafas de água, por exemplo).

Se pegarem num qualquer livro sobre primeiros socorros ou sobre parentalidade estas são, de facto, as sugestões mais apontadas. No entanto, naquela formação, naquele dia, estava uma pessoa que deu uma sugestão que mudou completamente a forma de eu olhar para algo que, até então, eu achava óbvio e certo.

E o que ela disse foi o seguinte:

“Podemos diminuir a quantidade de detergentes que temos em casa”.

Na altura eu já tinha as minhas noções de sustentabilidade e alguma consciência ambiental, mas posso garantir que foi a primeira vez que refleti sobre aquela questão.

Toda a minha vida eu vivi com a realidade de ter um detergente para a louça, um para limpar as bancadas, outro para o chão, um para os vidros, um para a sanita, outro para a roupa na máquina, para a roupa à mão, outro para… outro, outro outro…

Hoje em dia a quantidade de detergentes domésticos é bastante reduzida. O que não só diminui os riscos e as alergias, mas também a quantidade de espaço necessária para arrumação e a confusão na hora das limpezas.

Mas, mais do que deixar esta dica para minimizar a quantidade de detergentes, importa-me salientar a seguinte reflexão: 

Quantos dos comportamentos nocivos (quer para nós, os outros ou o ambiente…) são resultado do filtro que nos transmitido pelos nossos pais, pares, comunicação social, etc?

E que mensagem queremos passar para os nossos filhos? Que devem confiar cegamente naquilo que lhes “vendem” como verdade? Ou que devem informar-se, olhar para além do óbvio, ter espírito crítico e interventivo?

Naquela formação, para além dos primeiros socorros pediátricos eu descobri que não preciso de 20 detergentes em casa, mas mais do que isso, aprendi a olhar para além do óbvio e da realidade em que eu existo.

Aprendi que no tempo dos nossos pais e avós se fazia as coisas de uma forma diferente e mais simples. Uma forma que agora começamos a reviver em versão melhorada e modernizada.

Aprendi que noutras culturas e modos de vida as coisas também se fazem de forma diferente e que é necessário estarmos informados e abertos a essa nova informação. Não para a adquirirmos como verdade absoluta, mas para a integrarmos na nossa própria vida da forma mais construtiva possível.

Eu acredito que o mundo muda de dentro para fora, mas às vezes, é de fora para dentro que algumas descobertas acontecem.

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