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Presente de Natal

Era véspera de Natal. Por toda a casa se respirava atmosfera natalícia. Na sala, num cantinho não muito longe da lareira, a árvore de Natal imponente e ricamente ornamentada, dominava o espaço. Sob esta, o presépio completo, cuidadosamente colocado por cima de uma caminha de musgo verde e fofo, ajudava a lembrar a componente religiosa desta quadra. Não faltavam as figuras típicas da vaca e do burro, que aqueceram o menino na manjedoura, nem os pastores e as ovelhas, muito menos os reis magos, montados em seus camelos, chegados do Oriente com as suas ofertas para o Salvador. Apenas faltava uma figura. No centro do presépio, faltava ainda o Menino Jesus. A sua cama estava vazia, pois que ele só viria ocupá-la à meia-noite, como todos os anos acontecia.

Da cozinha escapavam-se os odores dos doces acabados de fritar, carinhosamente polvilhados com canela e açúcar. A mesa da consoada seria farta e variada. Não faltaria o bacalhau e o peru, as filhoses e as rabanadas, os doces de abóbora e as orelhas-de-abade, que marcavam presença já desde tempos remotos, em que a avó era a figura que se ocupava da sua confecção.

Às oito e ponto todos estariam em volta da mesa, posta sobre a toalha de linho e renda, cuidadosamente passada a ferro. Ao centro, um arranjo de Natal, com azevinho e pinhas combinaria perfeitamente com os marcadores de lugares, especialmente feitos para a ocasião. A melhor louça sairia do armário e faria companhia aos copos de cristal que raramente eram utilizados e ao faqueiro de prata que tinha sido exaustivamente polido no dia anterior.

Era uma verdadeira noite de festa, na qual a família se reunia, para celebrar o nascimento de Cristo. A magia da quadra pairava no ar e só se desvaneceria após a passagem de ano, quando a árvores fosse desmontada e as decorações retiradas.

Debaixo da árvore de Natal, o chão desaparecia sob a cama de presentes, abraçados pelos seus belos embrulhos de papel de seda e laços brilhantes que desafiavam a curiosidade das crianças, mas também dos adultos.

O pai chegara mais cedo do trabalho, como também era costume nesse dia. Mais tarde ajudaria nos preparativos da festa, escolhendo os vinhos e assistindo a mãe na cozinha, fazendo os recados que fosse necessário. A filha esperava-o ansiosamente. Assim que ouviu a porta da entrada correu da cozinha ao seu encontro.

– Pai, finalmente chegaste!

O pai beijou carinhosamente a testa da filha e seguiu-a até à cozinha, onde beijou também a esposa.

– Este Natal quero uma prenda muito especial…

O pai e a mãe entreolharam-se antes de falar.

– Minha querida, todos os presentes já foram comprados. Já estão todos debaixo da árvore de Natal.

          – Mas este presente é mesmo importante… – a menina insistiu.

– Não insistas, filha. Já sabes como é que funciona: podes fazer a tua lista no início do mês e depois eu e a mãe, com a ajuda do Pai Natal, escolhemos os presentes que poderás ter. E este ano já está tudo comprado. Mesmo que quiséssemos, agora já não haveria tempo para ir às compras, daqui a pouco as pessoas começam a chegar!

– Mas…e se eu pedir ao Menino Jesus?!

– Já chega! – Concluiu a mãe – Ainda temos imenso que fazer, não vamos perder mais tempo com esta conversa. Os teus presentes estão ali – apontou para debaixo da árvore – e de certeza que vais gostar muito deles. Agora vamos todos para a cozinha, vá!

A criança baixou os olhos, rasos de lágrimas. Olhou novamente para os presentes metodicamente arrumados debaixo da árvore e fez mais uma tentativa:

– E se eu trocar aqueles presentes todos, por este que quero?!

A mãe, cada vez mais impaciente lançou-lhe um ar reprovador, atalhando a conversa num tom firme e determinado, embora não fosse ríspido:

– Chega! Leva esses talheres para a mesa e coloca-os como te ensinei!

Em silêncio, fez exactamente o que a mãe lhe tinha dito para fazer e, assim continuou a seguir as suas instruções até que os primeiros familiares começaram a chegar.

De repente, a sala encheu-se com o barulho de fundo das conversas, dos pratos e talheres a tilintar, dos copos a brindarem, de crianças a rir e a brincar.

Mas finalmente, a hora de abrir os presentes chegou. À meia-noite em ponto, como sempre acontecia, o Menino Jesus foi colocado na sua caminha de palhas, as luzes da árvore foram acesas e todos se cumprimentaram ao som de cânticos de Natal que soavam da moderna aparelhagem. Depois os presentes foram distribuídos e abertos, um a um, numa sinfonia de papel a rasgar e exclamações de contentamento.

A única que nessa noite não partilhava da usual euforia era a menina, que calmamente e sem entusiasmo ia abrindo cada um dos seus muitos presentes. Para cada um esboçava um sorriso, mas depressa os colocava num monte ao seu lado. Os pais, entretidos com a agitação geral e com a sua tarefa de anfitriães, não repararam na reacção da filha.

Era já tarde quando todos saíram, deixando um monte papéis de embrulho rasgados, fitas descompostas e pratos e copos por lavar. Nenhum deles se preocuparia com a confusão naquela noite. Era hora de dormir.

Mas a pequena continuava sentada junto ao seu monte de presentes desembrulhados, com a cabeça baixa e um olhar triste e distante. Apesar do cansaço, os pais não puderam deixar de reparar na sua expressão:

– O que se passa, filha, não gostaste dos teus presentes?

– Gostei…não é isso…é só que não era isto que eu queria.

Os pais estranharam a conversa. Quando a tiveram a meio da tarde tinha-lhes parecido normal que uma criança tivesse um pedido de última hora, a que não tinham acedido, pois precisava de entender que a vida não é feita de caprichos. Mas em momento algum tinham imaginado que aquilo fosse durar, que não passasse com o entusiasmo de ver os presentes lindos que lhe tinham comprado e que era, afinal, aqueles que ela tinha escolhido na sua lista.

-Então?

– Tudo o que eu queria este ano era poder partilhar o que temos com quem precisa…A professora na escola disse que havia meninos que não recebem presentes de Natal, então eu estive a pensar e hoje lembrei-me que em vez de eu receber presentes, podia comprar um para um menino que precisasse…mas agora é tarde…o Menino Jesus já nasceu e esse menino não teve nenhum presente…

As lágrimas rolaram-lhe pelos olhos despertando também a dos seus pais que percebiam a injustiça que tinham cometido.

– Sabes filha, há muitos meninos que se deitam cedo e só abrem os seus presentes na manhã de Natal…e se tu escolhesses um para ti e embrulhássemos os outros para lhes levar amanhã, antes da missa?

– A sério?! Que bom seria!

No dia seguinte, saíram de casa cedo, com um saco cheio de presentes e outro de doces de Natal que deixaram na Igreja, para serem entregues a quem deles necessitava. Durante a missa, deram as mãos, sentindo que o maior presente de todos era a bênção de estarem juntos e poderem partilhar o seu amor com o mundo.

 

 

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